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MÓDULO 3: Entendendo algumas particularidades da gestação

Texto 6: A infecção urinária na gestação

Cristiane Alves de Oliveira e Laudelino Marques Lopes

A infecção urinária é definida como a presença e a multiplicação de microrganismos no trato urinário. Ela constitui uma das infecções mais freqüentes da gestação sendo a terceira intercorrência clínica mais comum na gestação, e acomete cerca de 10 a 12% das grávidas. A maioria destas infecções ocorre no primeiro trimestre da gravidez, 9% sob a forma de infecção urinária baixa (cistite) e 2% como infecção urinária alta (pielonefrite). A infecção urinária cria várias situações doentias e contribui para a mortalidade materno infantil.

O exame simples de urina (pesquisa de elementos anormais e sedimentoscopia - E.A.S.) durante a gestação é de requisição obrigatória e deve ser feito de forma rotineira pelo menos em três ocasiões no pré-natal. Nos casos de suspeita de uma infecção urinária, a confirmação da presença da mesma se faz obrigatória, e o exame requisitado com essa finalidade é a cultura de urina (urinocultura ou urocultura). Valores acima de 100.000 (ou 105) colônias de bactérias por mililitro de urina confirmam o diagnóstico. O exame simples de urina (E.A.S) não confirma ou exclui a presença de infecção urinária. Podemos identificar quatro tipos diversos de infecção urinária durante a gestação: bacteriúria assintomática, infecção urinária baixa (cistite), pielonefrite aguda e pielonefrite crônica. A bacteriúria assintomática está presente quando a paciente não tem sintomas ou queixas de infecção urinária, embora tenha urinocultura positiva. A infecção urinária aguda baixa, chamada de cistite, é quando os sintomas e a infecção estão relacionados à bexiga; a pielonefrite aguda, também chamada de infecção urinária alta, ocorre quando há infecção ascendente da uretra até o rim. A pielonefrite crônica é a fase crônica das infecções renais anteriores que deixaram lesões ou cicatrizes nos rins. Geralmente, a pielonefrite crônica não apresenta sintomas, mas pode estar acompanhada de hipertensão arterial. Com a gravidez, a hipertensão pode se tornar severa e piorar a função renal; com isso, o estado de saúde da mãe e do feto se altera.

Os riscos e complicações durante a gestação para a mãe e para o bebê são diferentes de acordo com cada uma das formas de infecção urinária descritas acima.

A mulher apresenta uma série de fatores que facilitam a infecção urinária, como a presença de uma uretra curta e do orifício que sai a urina (meato uretral) localizado muito próximo à vagina e ao ânus. Assim, a mulher tem mais comumente esse tipo de infecção do que o homem.

Durante a gestação, o risco de infecção é ainda maior, pois além dos fatores descritos acima, ocorrem mudanças no sistema urinário que predispõem ainda mais a infecção urinária, como a mudança da posição e do tônus da bexiga, as mudanças que ocorrem nos ureteres (que ligam os rins à bexiga) e a presença de glicose na urina (normalmente não encontrada na mulher não-grávida), dentre outras.

A bacteriúria assintomática é definida como a presença de proliferação bacteriana na urina, em grávida que não apresenta sintomas ou queixas urinárias, provavelmente, porque não está ocorrendo lesão e agressão à mucosa do trato urinário. Na gravidez, a incidência de bacteriúria assintomática é da ordem de 4 a 7%. Nas grávidas diabéticas, a incidência é maior, em torno de 12 a 14%, e nas mulheres que já tiveram infecção urinária antes de engravidar, é de 18 a 20 %. É interessante observar que a metade (50%) das bacteriúrias assintomáticas se torna sintomática até o final da gestação.

A bacteriúria assintomática deve ser pesquisada e tratada durante a gestação, justamente pela presença dos fatores que facilitam a infecção urinária na gestante descritos acima. As gestantes com bacteriúria assintomática têm maior risco de desenvolvimento de cistite e pielonefrite.

A pielonefrite, infecção do rim é a maior causa não-obstétrica de internação materna durante a gestação, podendo levar a complicações graves como trabalho de parto prematuro, infecção generalizada grave e insuficiência renal.

Como se faz o diagnóstico ?

A suspeita diagnóstica de infecção urinária se dá pelos sintomas de: vontade de urinar freqüente, ardência, urgência para urinar, dor lombar, náuseas, vômitos, sangue na urina e febre.

Para toda a gestante, deve-se sempre solicitar de 3 em 3 meses exames de urina e urinocultura. Com estes cuidados, procuramos descobrir as infecções urinárias assintomáticas e tratá-las precocemente.

No exame comum de urina, o sedimento urinário apresenta um número aumentado de leucócitos, acompanhados de sangue e albumina na urina.

Considera-se infecção urinária quando a cultura de urina é positiva, ou seja, com mais de 100.000 bactérias por mililitros de urina. A urina para cultura deve ser colhida pelo jato médio com técnica de antissepsia adequada. As grávidas principalmente no 3º trimestre contaminam a urina muito facilmente, por esta razão é importante que a coleta seja bem feita para evitar erros na interpretação da urocultura.

O diagnóstico de lesões do rim na na infecção urinária é feito pela ultra-sonografia (ecografia), que é uma investigação não invasiva e que permite a avaliação anatômica do rim, como malformações e tamanho renal, podendo também mostrar cálculos e obstruções.

A paciente pode apresentar sinais clínicos de infecção urinária, mas ter uroculturas negativas. Quando isto ocorrer deve-se procurar outras infecções, por outros microorganismos como chlamydia, herpes vírus, Candida albicans, trichomonas e outros.

Como se faz o tratamento?

Constatada a infecção urinária na grávida, ela deve ser imediatamente tratada para evitar complicações, como infecção generalizada, abortamento, parto prematuro, hipertensão gestacional e piora de anemia.

O tratamento deve basear-se no antibiograma (obtido a partir da urocultura). O médico deve escolher antibióticos que não sejam prejudiciais ao feto e a medicação deve ser usada pelo menor tempo possível, mas num período suficiente para ter a segurança de um tratamento adequado e eficaz.

Como se faz a prevenção?

Nas gestantes que têm infecção urinária recorrente, pode-se usar medicações preventivas por um longo período. Recomenda-se uma ingestão abundante de líquidos e, nas micções, procurar sempre o esvaziamento completo da bexiga.




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