Gestantes| Orientações e Informações
 
MÓDULO 1: Planejando a sua Gestação

Pesquisa de Doenças Infecciosas no Pré-natal e Profilaxia

Cristiane Alves de Oliveira
Laudelino Marques Lopes

Infecções durante a gestação não são infrequentes. Dependendo do tipo e época de acometimento algumas podem gerar complicações graves, afetando o binômio  materno-fetal.

O pré-natal é um exemplo clássico de prevenção. O rastreamento durante este período é a chave para identificação de gestantes com risco de transmissão vertical de infecções (ou seja, de mãe para filho). A maioria das  infecções na gestação são insidiosas e  apresentam pouco ou nenhum sintoma.

As infecções do feto e do recém nascido podem ser adquiridas durante a gestação (sendo neste caso chamadas de infecções congênitas), ou pelo contato com secreções vaginais e sangue contaminados durante o parto (chamadas de infecções  intraparto), ou ainda no período pós-parto, principalmente, através da amamentação ou por contaminação externa.

 Várias infecções têm o potencial de acometer o feto. O diagnóstico oportuno e preciso é a arma que devemos viabilizar para reduzir a morbidade e mortalidade fetal e perinatal oriundas de determinadas  infecções.

Vejamos um exemplo a ser aplicado ANTES DA MATERNIDADE: a Síndrome da Rubéola Congênita -  pode resultar em óbito fetal, abortamento, surdez, catarata, retardo mental, entre outras alterações no feto. É uma doença que é totalmente passível de prevenção, lançando mão da vacinação ANTES da gravidez.

Vejamos agora  um exemplo de prevenção a ser utilizado DURANTE A GRAVIDEZ. A infecção pela bactéria chamada de estreptococo do grupo B, responsável por complicações sérias, com pneumonia  e infecções generalizadas no recém-nascido. Este tipo de infecção , pode ser prevenida com o rastreamento da bactéria ( cultura de material vaginal) e se necessário  administração de antibiótico para a mãe no momento do parto.

Da mesma forma, várias infecções, quando diagnosticadas e tratadas corretamente, não acometerão o feto. As infecções que podem causar dano fetal ou no neonato são listadas na TABELA  1.

Principais infecções que podem causar dano ao seu bebê
Infecção Agente causador
Rubéola vírus da Rubéola
Varicela (Catapora) vírus Varicella zoster
Síndrome da Imunodeficiência
Adquirida (AIDS) vírus HIV 1 e 2
Hepatite B e C vírus HBV e HCV
Citomegalovirose Citomegalovírus (CMV)
Parvovirose Parvovírus B19
Herpes simples vírus Herpes simplex
   
Sífilis bactéria Treponema pallidum
Infecção pelo Estreptococo bactéria Streptococcus do grupo B(GBS)
   
Toxoplasmose protozoário Toxoplasma gondii
   

TABELA  1

Não existe nenhum procedimento universal de triagem para pesquisar todas as infecções e são necessários diferentes esquemas diagnósticos para cada uma delas.

A seguir falaremos sobre o rastreamento das principais infecções que podem acometer mãe e feto e da profilaxia recomendada para cada uma delas.

  •  Rubéola

    Entre 70 a 85% dos adultos possuem anticorpos contra o vírus da rubéola. A maioria das gestantes já foi infectada previamente, possuindo proteção contra essa infecção.

    É fundamental conhecer o estado sorológico da gestante, sendo que é necessária a comprovação laboratorial da presença de anticorpos anti-rubéola (IgG), mesmo que a paciente refira história de ter tido rubéola anteriormente ou refira ter sido vacinada. O diagnóstico de rubéola jamais pode ser apenas clínico, pois várias viroses cursam com clínica semelhante.(sinais e sintomas que se confundem com facilidade). A profilaxia da síndrome da rubéola congênita é feita com a vacinação anti-rubéola em meninas e adolescentes. Caso esta seja feita em mulheres na fase reprodutiva, recomenda-se evitar a gestação por um período de três meses após a sua administração, pelo risco potencial de acometimento fetal em função da vacina. A vacina anti-rubéola NÃO pode ser usada na gestação.

    Uma vez que a gestante tenha a rubéola durante a gestação, não há tratamento específico para a mesma.

    Em mulheres susceptíveis a infecção, ou seja, que não tenham anticorpos anti-rubéola, e encontram-se grávidas, recomenda-se evitar ambientes fechados, com muitas crianças, assim como o contato com pessoas com suspeita de estar com a infecção. É impossível fazer uma prevenção completa durante a gestação, nos casos de gestantes que não tenham sido vacinadas anteriormente e não apresentem defesas adquiridas ( IgG positivo, com titulação satisfatória para imunidade).
  • Varicela (Catapora)    

    A varicela (catapora) é doença muito contagiosa, quando ocorre na gestação. O vírus causador da varicela passa a placenta com facilidade e pode acometer o feto. A varicela neonatal é muito grave, principalmente nas crianças que as mães tiveram a infecção 5 dias antes do parto ou  no puerpério, tendo alta taxa de mortalidade (até 35%).

    Não é recomendado o rastreamento da varicela no pré-natal. O seu diagnóstico é geralmente clínico.

    Recomenda-se, como profilaxia, a aplicação de imunoglobulina antivaricela em gestantes que não tiveram varicela previamente  que foram expostas a um paciente com a infecção, no máximo até 96 horas do contato.

    A vacina antivaricela é contra-indicada na gravidez.

    A imunoglobulina antivaricela deverá também ser administrada ao neonato cuja mãe teve varicela 5 dias antes do parto ou  até 48 horas pós-parto.

  •  Infecção pelo vírus HIV

    É recomendada a realização de teste anti-HIV com aconselhamento e consentimento para TODAS as gestantes na primeira consulta de pré-natal, havendo necessidade da realização de pelo menos uma sorologia durante a gestação. A repetição da sorologia para HIV ao longo da gestação ou na admissão para o parto, deverá ser considerada em gestantes com exposição constante ao risco de aquisição do HIV(Recomendações para profilaxia da transmissão vertical do HIV – Ministério da Saúde, 2004).

    A maior parte dos casos de transmissão vertical do HIV ocorre durante o trabalho de parto e parto (65%), o restante (35%) ocorre intra-útero, principalmente nas últimas semanas de gestação e através do aleitamento materno.

    O aleitamento materno, no caso de mães infectadas pelo HIV, representa risco adicional de transmissão para o recém-nato de 7 a 22%.
    A transmissão vertical do HIV, sem qualquer intervenção, situa-se em torno de 20%.

    A despeito de não contarmos com rogas efetivas para a erradicação e tratamento da mãe infectada, o rastreamento, acompanhamento e tratamento adequado de mães soropositivos nos permite resultados excelentes com o recém-nascido. O uso de agentes anti-retrovirais durante a gestação em mães infectadas associado com a cesariana eletiva confere uma redução na taxa de transmissão para o recém-nascido extremamente baixa ( de zero a 2%).

  • Hepatite B e C   

    Recomenda-se no pré-natal a triagem para vírus B da hepatite (HBV). As gestantes  com diagnóstico de hepatite B , apresentam risco de transmissão desta infecção para o feto. As taxas de transmissão vertical variam entre 70 a 100% nas pacientes consideradas de maior risco (quando há diagnóstico de replicação viral) e < 10% nas demais pacientes (de baixo risco). Os recém nascidos de gestantes com hepatite B aguda ou crônica devem receber esquema de vacinação contra o HBV e imunoglobulina nas primeiras 12 horas após o nascimento, havendo com essa estratégia uma redução de mais de 90% da transmissão vertical, com índice de cronicidade inferior a 5%. Não há dados na literatura que recomendem, baseados em evidência científica, o tratamento na gestação.

    A transmissão vertical do vírus C da hepatite pode ocorrer na gestação, havendo discordância na literatura das taxas de transmissão vertical do mesmo (1-45%). Não há tratamento ou profilaxia considerados como efetivos para gestante e recém-nato. A triagem sorológica para HCV não é usada como rotina por alguns autores, sendo muitos vezes indicada a triagem direcionada para situações de risco, como: usuárias de drogas, pacientes HIV positivas ou com doença sexualmente transmissível -DST, transfundidas ou comunicantes de portadores da infecção.

  • Citomegalovirose  

    Cerca de 50% das mulheres em idade reprodutiva ainda são susceptíveis a essa infecção e estão sob risco de adquirir infecção primária pelo CMV na gestação, a qual ocorre em 1% das gestantes. Quando adquirida na gestação pode causar lesão fetal. A transmissão vertical ocorre em 30-40% das gestantes com infecção aguda na gestação. No entanto, a prevalência de infecção congênita é baixa e varia entre 0,2 a 2,2% de nascidos vivos. Menos de 10% dos recém-nascidos infectados são sintomáticos A maioria dos neonatos assintomáticos ao nascimento terá desenvolvimento normal, mas cerca de 10% poderão ter  seqüelas neurológicas tardias.

    Não há tratamento seguro e efetivo disponível para prevenir a transmissão da mãe para o feto.

    Como a maioria das infecções maternas são assintomáticas, têm sido propostas as triagens no pré-natal para essas infecções, mas a ausência de tratamento disponível para esta doença torna questionável a triagem de rotina desta infecção no pré-natal.  

     
  •  Parvovirose

    É uma virose relativamente comum. Aproximadamente 50% das gestantes têm sorologia positiva para o parvovírus B19, evidenciando proteção contra esta infecção. Quando a infecção ocorre na gestação, a taxa de transmissão vertical é em torno de 33%.

    Embora a maioria das infecções por parvovírus B19 não resulte em complicação materno-fetal, há casos graves descritos, como óbito fetal e hidropisia fetal não-imune (quadro de edema generalizado do feto). O feto parece ser vulnerável a esta infecção particularmente  entre 16 e 28 semanas de gestação.

    A pesquisa desta infecção está indicada nos casos de suspeita clínica (derrames pleurais, edema fetal, alterações de volume do líquido amniótico).

    Não há tratamento para a gestante e não há vacina disponível para esta doença. O tratamento do feto com hidropisia é possível, acarretando em redução da morbidade e mortalidade fetal.

    A imunização passiva, com imunoglobulina deverá ser considerada quando uma gestante susceptível for exposta a um paciente com esta infecção.

  • Herpes simples

    O maior risco de transmissão do vírus do herpes para o feto  é maior quando a infecção ocorre pela primeira vez durante a gestação ( surto primário), e estima-se que cerca de 30 a  50% dos fetos possam ser afetados. Nos casos onde a mãe já é portadora crônica da doença e teve uma recorrência ( reaparecimento) a probabilidade de acometimento fetal é bem menor (cerca de 1 a 4%). A infecção fetal pode acarretar em abortamento e comprometimento do Sistema Nervoso Central, prematuridade, entre outras complicações. A sorologia é o método diagnóstico mais utilizado atualmente.

    O uso de preservativos é o método mais eficaz de prevenção do herpes genital.

    Caso haja lesões visíveis na região perineal próximo a data provável, o parto cesariano está indicado.

    Há tratamento para o surto primário e a recidivas, sendo o mesmo realizado com aciclovir.  
                         
         
  • Sífilis    

    A sífilis é uma doença sexualmente transmissível. Infelizmente está havendo um recrudescimento desta doença nos últimos 15 anos. Estima-se que 3,5 a 45% das gestantes brasileiras tenham sífilis.

    O risco de transmissão fetal  é de cerca de 70 a 100% nas mulheres com sífilis primária. Na fase de sífilis latente essa transmissão varia entre 6 a 40%.
    A sífilis materna não tratada pode acarretar em grave acometimento fetal, incluindo abortamento e óbito fetal.

    Todas as gestantes devem ser rastreadas no pré-natal para esta infecção, com a realização de teste chamado de VDRL (Venereal Disease Research Laboratory) no 1º, 2º e 3º trimestres.

    É uma doença absolutamente tratável. O tratamento correto da gestante com diagnóstico de sífilis com penicilina, previne a infecção fetal. O tratamento do parceiro é imprescindível para que a gestante seja considerada como corretamente tratada.   

                                 
  • Infecção pelo Estreptococo do grupo B

    O estreptococo do grupo B coloniza o trato genito-urinário de cerca de 10-40% das gestantes, sendo importante causa de infecções neonatal (de pneumonias graves a infecções generalizadas sepse neonatal).

    A cultura dessa bactéria nas regiões de vagina e perianal é o método  mais comumente utilizado para pesquisa da colonização por essa bactéria. Devendo ser realizado no final da gestação (em torno da 35ª semana).

    A utilização de antibiótico no deflagrar do trabalho de parto ou no intraparto reduz significativamente a infecção neonatal e é recomendada para as gestantes com resultado positivo na cultura para esta bactéria e naquelas gestantes com fator de risco para infecção perinatal pelo estreptococo do grupo B, como: trabalho de parto prematuro, ruptura de membranas amnióticas há mais de 12 horas antes do parto, febre materna durante o parto ou teste de urina (cultura de urina) mostrando a presença desta bactéria realizado durante a gestação. 
        
  • Toxoplasmose

    A toxoplasmose é uma infecção congênita comum no nosso meio. É uma doença que pode ser evitada com o diagnóstico e tratamentos adequados da gestante. Cerca de 70% dos adultos já tiveram infecção prévia pelo toxoplasma. A transmissão para o feto varia com a idade gestacional em que a infecção foi adquirida. A transmissão no início da gestação é menos comum, variando de 10-25% no 1º trimestre; chegando  até 60-65% no 3º trimestre de gestação. A infecção fetal que ocorre no primeiro trimestre tem repercussões fetais mais graves.

    O diagnóstico é feito por sorologia, idealmente solicitado na primeira consulta de pré-natal, devendo o teste ser repetido nos trimestres seguintes caso a sorologia seja negativa inicialmente.

    Nas pacientes susceptíveis à doença recomenda-se, para prevenir a infecção materna pelo toxoplasma as seguintes medidas:
    • Comer apenas carne bem cozida,
    • Lavar bem frutas e verduras,
    • Usar luvas para manipular carnes cruas,
    • Evitar contato com gatos,
    • Evitar mexer em terra,
    • Lavar bem as mãos antes das refeições.

  • O tratamento adequado da mãe e do feto, caso seja identificada a infecção fetal, previne as complicações fetais geradas por esta infecção.

Referências Bibliográficas:

  •  Recomendações para profilaxia da transmissão vertical do HIV e terapia anti-retroviral em gestantes. Ministério da Saúde,    Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS, Série Manuais número 46, 2004.
  • Nogueira S.A., Reis M.A.B., Lambert J.S. Manual para diagnóstico e tratamento de infecções na gravidez, 2000.



Dê a sua opinião
Todos os módulos
 
Anterior Próximo Enviar por email Imprimir
© 2005 | CPDT - Centro Pré-Natal de Diagnóstico e Tratamento

Rua das Laranjeiras, 445 - Laranjeiras Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2102-2300
desenvolvido por