Camisinha Feminina Em 01/12/2006 por Cristiane Alves de Oliveira
Laudelino Marques Lopes
A epidemia de AIDS no Brasil está em processo de estabilização, embora em patamares elevados. Em 2003, foram diagnosticados 32.247 novos casos de AIDS no país (18,2 casos por 100 mil habitantes). A tendência à estabilização da doença é observada apenas entre os homens. Em 2003, a incidência foi de 22,6 casos por 100 mil homens, menor do que a observada em 1998, de 26,3 por 100 mil homens. Entretanto, observa-se ainda o crescimento da incidência de AIDS em mulheres, tendo sido observada a maior taxa de incidência em 2003: 14,0 casos por 100 mil mulheres. Em 2004, foram registrados 3.644 novos casos de AIDS em homens e 2.132 novos casos de AIDS em mulheres no país (Sistema Nacional de Agravos de Notificação - SINAN, www.aids.gov.br).
A AIDS vem atingindo de maneira crescente, os indivíduos com menor escolaridade, principalmente as mulheres (Sistema Nacional de Agravos de Notificação - SINAN, www.aids.gov.br).
A mortalidade por AIDS foi 2% maior em 2003 do que a registrada em 2002, com 11.276 óbitos. A taxa de mortalidade manteve tendência crescente entre as mulheres nas regiões Sul, Norte e Nordeste do país (Sistema Nacional de Agravos de Notificação - SINAN, www.aids.gov.br).
Os preservativos (masculino e feminino) são até o momento os únicos métodos de dupla proteção disponíveis. Método de dupla proteção significa proteção contra gravidez e DST (Doença sexualmente transmissível).
A estratégia de utilização da camisinha feminina como forma de prevenção às DST/AIDS é considerada de suma importância devido à expansão da epidemia entre as mulheres no país. O aumento da incidência de AIDS entre as mulheres está relacionado à vulnerabilidade da mulher à doença, decorrente da violência sexual e da dificuldade de negociação do uso do preservativo masculino com o parceiro. Hoje, a cada três casos de AIDS no Brasil, um é feminino. Os casos estão concentrados nas mulheres com idade entre 20 e 49 anos, representando 83% dos casos femininos (Programa Nacional de DST e Aids).
O preservativo feminino tem sido objeto de controvérsias em relação a sua aceitação. Apesar de dados de estudos observacionais evidenciarem resultados bastante favoráveis ao uso do produto, obstáculos e tabus por parte dos profissionais de saúde e dos planejadores das políticas públicas têm sido considerados exagerados, prejudicando o maior uso do produto. No entanto, a camisinha feminina, tanto para prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como para contracepção, satisfaz a muitos que encontram no método um aliado, ainda que não o considerem ideal (Portugal, M.A.L - Tese de Doutorado apresentada à Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, 2003).
A camisinha feminina amplia o leque de opções preventivas disponíveis para o controle do mais importante modo de transmissão do HIV, o sexual.
PRESERVATIVO FEMININO
O único preservativo feminino disponível atualmente é fabricado pela Female Health Company (FHC). Aprovado em 1993 pela FDA (Food and Drug Administration - órgão que controla alimentos e medicamentos nos EUA), o preservativo da FHC tem o nome de Reality nos EUA e outros nomes em outros lugares, incluindo Femidom e Care Contraceptive Sheath.
A camisinha feminina é feita de poliuretano (mais resistente que o látex da camisinha masculina, mas que permite maior passagem do calor, dando maior sensibilidade), consistindo de bolsa lubrificada de 17 cm de comprimento, com uma extremidade fechada (interna) e outra aberta (externa). O produto tem dois anéis, sendo que o interno deve ser posicionado no fundo vaginal (anel flexível e removível), e funciona como âncora na vagina, semelhante ao diafragma. A extremidade aberta (anel externo semelhante ao interno, só que fixo) oferece proteção ao recobrir parte da vulva e da base do pênis durante a penetração na relação sexual.
Como método anticoncepcional, a camisinha feminina tem uma eficácia em torno de 90% (ou seja, ela tem falha entre 3 e 12%, semelhante à camisinha masculina), e como proteção contra doenças sexualmente transmissíveis, eficácia de mais de 99%.
As características desejáveis de um método de prevenção ideal são: eficácia, ausência de efeitos indesejáveis, conveniência e baixo custo. Apesar do da camisinha feminina não ser um método ideal, pode ser considerado um avanço na promoção da saúde. Sua disponibilização amplia as opções de métodos de barreira, podendo reduzir o número de relações sexuais desprotegidas, ainda que com significativas restrições de acesso (custo), de adaptação e de preferências pessoais (Portugal, M.A.L, 2003).
A camisinha feminina teve seu registro obtido no Brasil em 1997 junto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) pela DKT do Brasil Produtos de Uso Pessoal Ltda. e encontra-se disponível no mercado brasileiro desde dezembro deste ano (Portugal, M.A.L, 2003).
ACEITABILIDADE E ACESSO
O preservativo feminino tem sido considerado como estimulador do diálogo entre os parceiros sexuais, nova alternativa de proteção para indivíduos em tratamentos de DST em geral e ferramenta de descoberta do corpo feminino por ambos os sexos.
Estudos de aceitabilidade deste produto identificam como aspectos favoráveis de seu uso:
- Fortalecimento da autonomia feminina na opção pelo método contraceptivo e de proteção contra DST;
- Alto grau de proteção contra DST/AIDS quando usado corretamente;
- Maciez e conforto do produto;
- Alguns usuários relatam aumento do prazer com o uso da camisinha feminina, além de sua colocação não necessitar interromper a relação sexual (pois pode ser colocado até 8 horas antes da relação sexual), nem depender da ereção (Ministério da Saúde, 1999).
São considerados como pontos desfavoráveis para o seu uso:
- Necessidade de prática e treinamento para inserção e uso;
- Visibilidade do produto ao parceiro, sendo o anel externo considerado esteticamente feio;
- Lubrificante excessivo. A literatura registra queixas de usuárias sobre o barulho e deslocamento durante o ato sexual;
- Custo elevado quando comparado à camisinha masculina (Ministério da Saúde, 1999).
O preservativo feminino é vendido em algumas farmácias no país, e custa de 3 vezes até 20 vezes mais que a camisinha masculina, variando muito o preço nas diferentes redes de farmácia, o que pode explicar o seu uso tão pouco freqüente. A camisinha feminina pode ser encontrada com preço variando de R$2,00 a R$ 15,00 cada.
O preservativo feminino é bastante conhecido, mas não na prática. Embora a maioria das pessoas entrevistadas pelo MS/IBOPE, Brasil (2003), tenha ouvido falar da camisinha feminina (76,1%), apenas 1,5% das mulheres afirma tê-la usado alguma vez e 3,6% dos homens tiveram relação sexual com a mesma. A camisinha feminina é conhecida, sobretudo, pelos pessoas com ensino médio ou superior (90,1% e 88,7%) e é desconhecida por mais de um terço da população brasileira que cursou até a 4ª série do ensino fundamental (37,3%) e por 2 a cada 10 pessoas que estudaram da 5ª a 8ª série do fundamental.
Também é significativa a diferença observada entre a taxa de conhecimento acerca do preservativo feminino nas diferentes regiões do país(MS/IBOPE, Brasil 2003).
O uso de preservativo na primeira relação sexual foi relatado por 26,4% dos casos. A maior parcela dos entrevistados iniciou sua vida sexual numa relação sexual sem camisinha (73,6%). O uso de preservativo na primeira relação sexual é algo mais freqüente entre os homens (29,3%) que entre as mulheres (23,1%) (MS/IBOPE, Brasil 2003).
Os motivos indicados para não usar preservativos estão distribuídos de forma parecida entre os brasileiros entrevistados: ter confiança no parceiro e ser casado. Esses motivos são preocupantes pelo número crescente de casos de DST/AIDS em parceiros heterossexuais e mulheres monogâmicas (MS/IBOPE, Brasil 2003).
POLÍTICA DE DISTRIBUIÇÃO GRATUITA DO PRESERVATIVO FEMININO NO BRASIL
A Coordenação Nacional de DST/AIDS do Ministério da Saúde (CN DST/AIDS) optou em 1999 pela aquisição e distribuição direcionada de 2 milhões de unidades inicialmente, com cobertura geográfica de 19 estados da federação. Os critérios utilizados para caracterização da população-alvo compreenderam profissionais do sexo, mulheres que estão em situação de violência sexual e/ou doméstica, mulheres soropositivas e mulheres usuárias de drogas. A experiência da distribuição na rede pública de saúde é uma iniciativa única em sua dimensão e forma. Por se tratar de um produto caro, o acesso ao mesmo é restrito. A distribuição gratuita garante acesso a pessoas que não o teriam de outra forma.
O Brasil é o único país do mundo a distribuir o preservativo feminino, comprando 60% da produção mundial anual atual (Coordenação Nacional de DST/AIDS, 2003).
O Ministério da Saúde assinou contrato para compra de 4 milhões de preservativos femininos em 2005 e a expectativa é que as primeiras remessas comecem a ser distribuídas em dezembro. A última aquisição, referente aos anos de 2003 e 2004, também foi de 4 milhões de unidades. No biênio 2001/2002, quando foi iniciada a oferta do insumo, o quantitativo era de 2 milhões.
A camisinha feminina é distribuída nos serviços de saúde e nas organizações da sociedade civil que desenvolvem ações de prevenção de DST/AIDS. Estima-se que 682 serviços governamentais ou não governamentais façam a entrega do insumo hoje no Brasil. Mulheres soropositivas, profissionais do sexo e usuárias de drogas ou parceiras de usuários de drogas têm prioridade na distribuição da camisinha feminina.
COMO COLOCAR A CAMISINHA FEMININA
A camisinha feminina pode ser inserida até 8 horas antes do sexo. Existe um anel flexível na extremidade fechada da mesma. Um anel ligeiramente maior está na extremidade aberta da mesma. O anel na extremidade fechada mantém o preservativo na posição correta no fundo da vagina, próximo ao colo do útero. O anel da extremidade aberta fica posicionado fora da vagina.
Devem-se seguir as seguintes instruções para colocá-la corretamente:
1. Achar uma posição confortável que pode ser:
- Deitada com as pernas dobradas e joelhos afastados;
- Agachada com joelhos separados;
- De pé com um dos pés em uma cadeira.
2. Segurar a camisinha com a extremidade aberta pendurada para baixo. Apertar o anel interno com o dedo polegar e o médio.
3. Segurando o anel interno apertado e junto, inserir o mesmo na vagina, empurrando-o até ultrapassar o nível do osso do púbis.
Quando corretamente inserido, o anel externo ficará pendurado para baixo, fora da vagina.
Durante a relação sexual, introduzir o pênis na vagina com a mão no interior do preservativo feminino. Se o preservativo parece estar grudando e se movendo com o pênis em lugar de repousar na vagina, parar e colocar lubrificante dentro do preservativo (próximo ao anel externo) ou no pênis.
Para remover o preservativo feminino depois da relação:
1. Apertar e torcer o anel externo para manter o sêmen do lado de dentro da camisinha.
2. Puxar suavemente o preservativo feminino para fora e jogá-lo no lixo.
Não utilizar os dois tipos de preservativo, feminino e masculino, ao mesmo tempo. Deve-se atentar para não rasgá-lo.
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