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Cirurgia Fetal
Em 01/10/2005 por Cristiane Alves de Oliveira
Laudelino Marques Lopes

Exceto por alguns procedimentos, a cirurgia fetal na sua plenitude está em estágios iniciais e experimentais, sendo realizada em poucos centros especializados. A cirurgia fetal implica em elevados riscos materno-fetais, devendo ser indicada apenas quando os benefícios comprovadamente suplantam os riscos. Há três tipos abordagens ao feto: percutânea sob orientação ultra-sonográfica, fetoscópica e a cirurgia fetal a céu aberto. O desenvolvimento dos procedimentos fetoscópicos para tratamento de anomalias fetais diminuiu as complicações e morbidades associadas às cirurgias abertas. A mortalidade fetal e a morbidade materna ainda são bastante elevadas em muitos procedimentos cirúrgicos propostos, especialmente os procedimentos a céu aberto. Os benefícios do tratamento cirúrgico para o feto devem ser rigorosamente avaliados, devendo ser excluídas outras malformações e a intervenção deve melhorar significativamente o prognóstico em relação ao tratamento pós-natal.  

Algumas malformações congênitas que podem se beneficiar da cirurgia fetal

Malformação

Efeito sobre o desenvolvimento fetal

Tratamento fetal

Obstrução do trato urinário Insuficiência renal e respiratória Derivação vesico-amniótica.
Hérnia Diafragmática Congênita Insuficiência respiratória, hipertensão pulmonar. Oclusão traqueal fetoscópica.
Anomalias vasculares placentárias Transfusão feto-fetal, perfusão arterial reversa de gêmeos/morte de 1 dos gêmeos. Ablação fetoscópica a laser de vasos; Ligadura/oclusão do cordão umbilical.
Teratoma sacrococcígeo Hidropisia, morte fetal. Interrupção do suprimento sangüíneo para o tumor.
Mielomeningocele Malformação de Arnold-Chiari, hidrocefalia, paralisia dos membros inferiores. Reparo cirúrgico fetal, oclusão do extravasamento de líquor.
Banda amniótica Amputação de membros/dedos Ruptura fetoscópica da banda.
Malformação adenomatóide cística pulmonar Insuficiência respiratória, hidropisia. Ressecção do tumor/ citorredução fetoscópica do tumor.
Hidrotórax Insuficiência respiratória Derivação tóraco-amniótica.
  Malformações do Trato urinário As anomalias do trato urinário são, juntamente com as anomalias do sistema nervoso central, as mais comumente encontradas durante o pré-natal. A doença simétrica bilateral denuncia, freqüentemente, anomalia genética ou outras anormalidades genéticas graves associadas, estando normalmente associada com prognóstico sombrio. Malformações como displasia cística e agenesia renal não podem ser corrigidas e cursam com oligodramnia que, por sua vez, compromete o desenvolvimento pulmonar fetal. No entanto, fetos com uropatias obstrutivas isoladas podem se beneficiar da correção da lesão intra-útero através de derivação vesico-amniótica.   Hérnia Diafragmática Congênita (HDC) Consiste na herniação de parte do conteúdo abdominal para a cavidade torácica. Sua incidência é em torno de 1:2.000 a 1:3.000 nascimentos e 90% ocorrem do lado esquerdo. A mortalidade pós-natal por hipoplasia e hipertensão pulmonar é significativa. A herniação do fígado para o tórax piora o prognóstico fetal. O reparo cirúrgico a céu aberto foi abandonado por não apresentar bons resultados. Foram desenvolvidas técnicas fetoscópicas minimamente invasivas para a oclusão temporária da traquéia fetal de modo a impedir o egresso normal do líquido pulmonar fetal e ocasionar o crescimento pulmonar gradual, acelerando o desenvolvimento do mesmo.   Síndrome de transfusão feto-fetal É a complicação mais comum das gestações gemelares monocoriônicas, acometendo 5 em 15 destas gestações. Há com freqüência anastomoses entre os dois gêmeos, e se estas anastomoses não forem balanceadas há desvio do sangue de um feto para outro. O aspecto mais controverso da Síndrome de transfusão feto-fetal é, sem dúvida, o tratamento. A conduta expectante está associada a 100% de mortalidade perinatal. As terapias invasivas incluem: amniocentese seriada, laser das anastomoses comunicantes e oclusão do cordão umbilical, outras opções outrora realizadas (septostomia e amnioinfusão na bolsa do doador) não são mais recomendadas. A amniocentese seriada está associada a taxas de sucesso de 66% (para um sobrevivente) com risco de paralisia cerebral de 15%. As coagulações seletivas (laser das anastomoses comunicantes) estão associadas a 85% de taxas de sucesso (sobrevivência de pelo menos um dos fetos) e a 3 a 5% de paralisia cerebral. Morte de um dos Fetos na gestação gemelar e Gêmeo acárdico A morte de um dos fetos na gestação gemelar avançada está associada à morte ou a morbidade significativa (ex.: complicações neurológicas) do outro gêmeo. Estas complicações podem estar relacionadas à passagem de substâncias tromboplásticas do feto morto ao feto sobrevivente. Além disso, recentemente foi possível demonstrar que o feto sobrevivente desenvolve anemia em poucas horas. No caso da gestação gemelar com um feto acárdico, todos os gêmeos receptores (acárdicos) falecem. A metade dos doadores (normalmente fetos morfologicamente normais) morre por insuficiência cardíaca ou devido ao óbito do gemelar a ele interligado. A única forma de se evitar estas complicações é a oclusão vascular para impedir a passagem de sangue ou substâncias nocivas para o feto saudável, o que pode ser conseguido através da ligadura endoscópica ou embolização da artéria do cordão umbilical do feto comprometido/morto ou oclusão endoscópica a laser das anastomoses vasculares. Teratoma Sacrococcígeo É o tumor mais comum de fetos e neonatos. A significativa morbi-mortalidade pré-natal associada ao mesmo deve-se à insuficiência cardíaca por débito cardíaco elevado associado à derivação arteriovenosa através do tumor, ocasionando hidropisia fetal e anemia fetal. Tumores detectados precocemente na gestação são normalmente agressivos. A sobrevida é menor que 10% em tumores detectados antes de 30 semanas de gestação. Em vista do prognóstico muito ruim associado aos tumores agressivos foi proposta a excisão dos mesmos, não tendo sido obtido sucesso. Atualmente procura-se desenvolver técnicas de abordagem minimamente invasiva (através da fetoscopia) de forma a coagular o suprimento sangüíneo do tumor, reduzindo o risco de descompensação fetal.   Mielomeningocele  Defeitos isolados abertos da coluna fetal normalmente resultam em danos neurológicos irreversíveis. A cirurgia fetal para mielomeningocele tem recebido muita atenção na terapia fetal, no entanto, o tratamento ideal para esta malformação ainda não foi determinado. A elevada morbidade materna decorrente da cirurgia fetal a céu aberto, inclui:
  • Aumento da prevalência de parto prematuro;
  • Aumento da rotura precoce e prematura das membranas (amniorrexe);
  • Infecção;
  • Edema pulmonar materno (pelo uso de agentes tocolíticos);
  • Complicações oriundas da cicatriz uterina (normalmente corporal), elevando sobremaneira o risco de rotura uterina.
A associação da incerteza dos benefícios da cirurgia para o feto reduz a indicação desta cirurgia na prática clínica. Bibliografia:
  • CUNNINGHAM, F.G.; LEVENO, K.J.; BLOOM, S.L.; et al. Williams Obstetrics, 22ª ed. Ed Mc Graw Hill, 2005.
  • CALLEN, P. W.; Ultra-sonografia em Obstetrícia e Ginecologia, 4ª ed. Ed Guanabara Koogan S. A., 2002.
  • CHAVES NETTO, H. Obstetrícia Básica, 1ª ed. Ed Atheneu, 2004.



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